
Aos alunos, com carinho. Gostei de ler essa frase quase que imediatamente após deixar a sala de cinema, ainda flutuando por entre a nuvem de poeira levantada pelo filme “Entre os muros da escola”. Não lembro bem de que jornal era a matéria afixada ao lado da bilheteria, penso que da crítica do Estado, cujo texto na internet faz referência ao filme para qual ela remete. “Ao mestre, com carinho” inaugura uma fila de filmes em que o protagonista, o professor durão, endireita seus alunos com um pouco de compreensão e muita disciplina. Entre os muros encerra essa tradição invertendo as ordens dos fatores. Ou talvez não seja exatamente isso.
Confesso que a educação não é o meu ponto forte de reflexão. Sua importância, ainda que diminuída muitas vezes pelas pessoas que compartilham de certo grau de pensamento filosófico ou científico, não pode ser ignorada. Um problema tão antigo quanto a própria filosofia é como transmitir o conhecimento (e quando é possível alcançá-lo, claro). Outro como lidar com o entrecruzamento de culturas quando a educação se torna um aspecto da política, isso é, quando a questão é civilizar ou tornar aptos ao convívio social os indivíduos. Trata-se de um campo bastante complexo, cuja discussão não pode despertar menos interesse.
O protagonista do filme, François, o mesmo autor do livro que inspirou a película, propõe-se ambas as questões. Daí, talvez, a preocupação do diretor em não colocar questões morais desde um único ponto de vista. Pareceu-me, até certo ponto, que as afirmações e atitudes mais interessantes surgem da boca dos alunos. Isso, porém, talvez seja fruto de que o professor nunca chegava a dar respostas muito convincentes ou morais ao comportamento supostamente insolente dos alunos. “Como você sabe que eu me acalmei”, indaga Carl, “Você não cria problemas, suas notas melhoraram”, responde François, “Então, você pensa que conseguiram me dobrar? Mas eu não sou apenas o meu comportamento”. As palavras não são exatamente essas, mas o teor da discussão, sim. Em outro trecho, discute-se o comportamento de um aluno no conselho de classe. A representante da turma adverte que o colega havia melhorado suas notas, enquanto o diretor responde que não se estava avaliando seu desempenho escolar, senão que sua conduta.
Por aí, François e o diretor vão pinçando os problemas relativos à instituição escola. De outra parte, são identificados a dificuldade em se lidar com o outro, numa sociedade que trata as diferenças culturais e religiosas de forma nem sempre tolerante.
O professor de História pede ao de Francês, o próprio autor do livro, que indique uma literatura clássica aos alunos. Voltaire, sugere ele, sem levar em conta as dificuldades que os alunos de 7ª. série encontrarão com uma escrita não muito simples – o iluminista utiliza ainda o passe simple (passado simples) numa época em que já começava a entrar em desuso. François traz-lhes O diário de Anne Frank, talvez mais apropriado. Mas daí, quando a tarefa é fazer próprio autorretrato, um dos estudantes mostra a tatuagem, que diz em Árabe algo como “não digas nunca além do que for necessário”. Não é porque os conflitos se assemelham que a literatura proposta resultou numa disposição maior em participar das aulas. Ás vezes, é preciso buscar outra coisa para falar do mesmo. E o caminho da educação não se rende ao lugar comum. Pelo menos se depender dos alunos.
Lembro-me de dois episódios que Sarah me relatou. Uma vez, querendo passar um filme para seus alunos, todos eles crianças da periferia, pediu-me um palpite. Ocorreu-me imediatamente “As bicicletas de Belle-ville”. Um colega mais experiente, ótimo educador, sem dúvida, desencorajou-a, mas ela foi em frente. As crianças adoraram. A cópia não possuía legendas, mas as falas não interessam muito no filme, e são muito poucas. Alguma outra coisa tocou as crianças. Algo parecido ocorreu com adolescentes de outra periferia. A exibição de um filme de dança, com uma temática homossexual bastante sutil, deixou todos presos a tela. Perguntaram depois sobre um dos atores, deficiente físico, cujo movimento era um atrativo especial. E claro, ficaram atraídos pela dança.
Depois de algum tempo refletindo sobre o filme, creio que os pontos essenciais a serem considerados são esses. Há outros, claro. Mas aqui restam aqueles que mais me interessam. Antes de passar pela experiência da sala de aula, eu pensava apenas como um aluno. Depois, quando deixei de ser professor, passei a prestar mais atenção no comportamento desses e como estavam também um pouco fragilizados com a tarefa, ainda que muito experientes. Então concluí, e em parte o filme confirma isso, que o problema não está em nenhum dos lados, necessariamente. Entre aquilo que se quer transmitir/ ensinar (e também quem quer ensinar) e aquilo que se quer fazer/ aprender (e quem quer aprender), existe uma lacuna grande que deve ser intermediada. A intermediação se encontra a cargo da instituição (que coloca a posição de cada uma das partes), com seus protocolos, regimentos etc. Mas não só isso. A tarefa hercúlea do educador é perceber-se como mediador (o que ele é de fato), isso é, colocar-se não no conteúdo e ao lado da instituição (não identificar sua vontade com a dela, no papel que ela lhe derroga), mas sim entre essas coisas e através do diálogo com os alunos (cada um, mas também a turma) estabelecer os parâmetros a serem desenvolvidos ali, naquele momento, e com algum objetivo (imediato ou não). Quando falo em diálogo não quero dizer unicamente a troca de informações verbais. O professor deve perceber o que está implícito no comportamento de seus alunos, sem utilizar-se de esquemas e preconceitos, isso é procurando trazer à tona aquilo que pode melhorar ou que deve ser discutido para facilitar o aprendizado. Por isso, a necessidade de se repensar o conteúdo e o próprio programa a cada aula.
Entre os muros não é um filme romântico, daqueles com uma mensagem óbvia sobre o ensino, colocando o problema ora na opressão dos alunos, ora na má-educação destes. Ao contrário, não apresenta solução, nem o protagonista é uma espécie de herói que resolve a vida de seus pupilos. Mas, por trás dessa aparência um pouco melancólica, há uma pluralidade de sentidos que se abrem através da interpretação de François e dos outros estudantes, todos eles pessoas reais que interpretam sua própria vida num filme utiliza de forma surpreendente o recurso da improvisação. Além disso, deve-se considerar que há apenas uma cena externa a escola. É quando François sai de um café e entra para o primeiro dia letivo do ano. Uma crítica, talvez, a incapacidade da escola em lidar ou mesmo abraçar a realidade exterior a ela.