Art Safari – Relational Art, is it a new ism?
Há alguns dias, durante um evento “íntimo” de arte em Florianópolis, no Contemporão Espaço de Performance, tivemos, eu e Kamilla, a idéia de um blog de crítica de arte e cultura (o termo cultura sendo mais amplo, implica a dinâmica do universo artístico e escolhas políticas tomadas dentro dele, sem querer dizer no sentido antropológico), em nome do qual o atual blog pode deixar de existir. Um tanto impressionados pelo que vem tomando emprestado o termo performance, tomado ou não como arte, mas sempre exposto como tal, veio-nos a idéia bombástica de que nossa cidade carece sobremaneira. Pesquisando um pouco na internet, pelo site Ubu, dei de frente com esse vídeo, um dos programas de Ben Lewis para a BBC, Art Safari, que teve a Arte Relacional como tema. Está em inglês e sem legendas, porém não muito difícil de compreender. Trata da Relational Art, termo que foi empregado pelo curador Nicolas Bourriaud em livro recente. Ao pé da página, fica a entrevista traduzida por mim, e no link do vídeo, a original.
O mais interessante do trabalho de Lewis é que se trata de uma crítica de arte, especificamente ao que Bourriaud chamou Relational Art, que não recorre aos argumentos mais comuns quando o assunto é Arte Contemporânea. De fato, a pergunta – isso é arte? – ressoa de fundo durante os 40 minutos de documentário mais por conta do espectador do que pela atitude do apresentador, que é, sim, irônica, mas não quanto ao estatuto artístico. Lewis recorre a um questionamento aparentemente superficial, porém suficientemente forte para se questionar os pressupostos do que ele considera ser um novo “ismo”: como é possível reunir sobre um mesmo nome um grupo de artistas aparentemente tão diferentes entre si? Suas escolhas têm entre si algo em comum que possa defini-los como um movimento artístico?
Lewis acredita que sim, mas não pretende responder essa pergunta através do filme. Não obstante, seu percurso leva-nos a diversos questionamentos análogos. Um deles, creio, seja o mais importante, e ainda pouco notado pelos críticos de arte e artistas em geral. Enquanto coloca a questão ideológica no centro da discussão, o apresentador parece perguntar-nos sobre a validade dos discursos ideológicos (tomados aqui como fragmentos, porque traçados dentro de uma determinada classe, a burguesia, e não podendo ao mesmo tempo almejar ser o discurso burguês sobre a arte) sobre a arte como discursos suficientes para classificar algo como artístico ou não. Certamente, o que chamamos de arte é e sempre será relativo a uma série de coisas que foge ao nosso controle, mas das quais tomamos parte para validá-lo ou invertê-lo. Não existe dúvida a respeito. O que não se vem colocando com muita honestidade é que isso pressupõe ao sujeito do discurso identificar suas premissas de forma clara e não autoritária – isso é, sem se defender atrás da cátedra ou do connaisseur de arte. Isso corresponde ao papel do crítico de arte, que não deve pretender sua palavra como a última. Outra é a do discurso do artista, que já se confunde com a do crítico, ao mesmo tempo em que tenta defender seu ofício como válido dentro mercado artístico.
Não vale a pena discutir conceitos como não-arte quando inseridos e valendo dinheiro em exposições de arte mundo afora. O máximo que se poderia argumentar é que mesmo no mercado a arte vem se confundindo com o objeto comum, não necessariamente ordinário, exposto a leilão. Fazê-lo nos deixaria distante da discussão estética, que continua tendo papel importante na distinção entre diferentes campos ou formas de conhecimento e, conseqüentemente, entre o que é arte o que não é.
O mais curioso de tudo é notar que a própria aproximação do fazer artístico ao campo conceitual, ou seja, a elaboração filosófica, abandonando a atividade manual que lhe foi própria durante muitas invernadas na história humana, a torna cada vez mais frágil. Com efeito, o que não tem sido notado pelos críticos mais “cascagrossa” da arte contemporânea, porque isso também implica discutir os seus próprios pressupostos estéticos, é que, se conceito de arte está diretamente ligado à elaboração conceitual do artista e dos especialistas, basta uma argumentação filosófica sólida para retirá-lo das galerias. Ainda assim, não penso que a proposição baste para classificar algo como arte: o que me irrita é que a arte tenha se reduzido a ela. Com uma pergunta na mão faz-se arte sem que praticamente se tenha que recorrer a qualquer outro tipo de trabalho. E, ainda assim, as exposições pululam obras que muito forçosamente, ou com a ajuda de um monitor, nos empurram que haja ali uma proposição.
BBC Four: Então… A Arte Relacional é um novo movimento?
Ben Lewis: Eu não sei se é um novo movimento ou não, eu quero que o espectador me diga. Eu suponho que o filme tenha colocado como um novo movimento de forma irônica, mas eu não coloquei esse argumento e de fato muitas pessoas ficam imaginando o que esses artistas têm em comumBBC Four: O que sugere que seja um novo movimento?
BL: Bem, eles se conhecem, interessam-se por arte que tenha um propósito e de certa maneira isso é muito arte pós-modernista (não posmodernista). Se você viu tudo e se perguntou o que tinham em comum, eles fazem algo que é usado. Seja luzes um tanto pretenciosas de Philippe Parreno´s, as luminárias, que provavelmente vão terminar na mesa ao lado da pele de um tigre de um colecionador com muito dinheiro; seja as cabines telefonincas de Elmgreen and Dragser onde você usa o exposto e se dá conta do que as pessoas pobres fazem.BBC Four: Muitos deles parecem ser bem politicos em suas preocupações, certamente anti-capitalistas…
BL: É… Eu diria que todo o seu trabalho se formou por uma visão política naive que só pode se formar na bolha de uma escola de arte. Eu penso que o infortúnio desse tipo de arte é que ela é politicamente imbecil, e, no nível intelectual, eles ainda dependem dos argumentos da escola de Frankfurt – Adorno e Horkheimer – dos anos sessenta. Eles argumentam que somos todos escravos de algo chamado ideologia dominante; essa coisa burguesa que construía nossa maneira de pensar, nossa política e sociedade por nós.
Porém o mundo que nós vivemos na verdade oferece muito mais escolhas para resistir, rebelar-se e construir nossa própria comunidade e eu não acho que nenhum do artistas nesse programa realmente levaram isso em conta. O ponto fraco da arte para mim é que ela é um tanto paternalista. Eles estão tentando me convencer de algo que discordo e estão dizendo – “Porque somos artistas, sabemos melhor”, e penso que esse seja um mito modernista que eles não conseguiram se livrar.
BBC Four: E pareceu que, apesar de acharem isso, ficaram relutante em discutir ou interpreter o próprio trabalho…
BL: É um “ismo” com alguns bons artistas e outros tantos ruins e foi um pesadelo realizar [o filme] porque eu fui muito franco com o artista que entrevistado que eu o fazia porque eles apareceram nesse livro (Estética Relacional de Nicolas Bourriaud´s) e estava interessado em saber o que eles pensavam a respeito. Fiquei surpreendido em saber que essa era uma questão repulsiva para muitos artistas. Muitos se recusaram terminantemente a estar no filme e o artista britânico Liam Gillick ficou totalmente irritado comigo. Ele ficou furioso com minha forma de perguntar. Pensou que era trivial e superficial. Sinceramente, não era, mas o problema com a teoria de arte é que ela é boa desde que fique dentro do espaço sagrado de críticos de arte sentados em galerias tendo discussões complexas com longas palavras que ninguém entende, mas se alguém se aproxima de fora e pergunta: Bem, por que vocês todos estão nesse livro?”, isso pode se tornar ameaçador.BBC Four: Não apenas os artista tiveram essa reação, houve também o dono de galleria Gavin Brown.
BL: Sim, Gavin. Ele foi legal. Fiquei surpreso com ele também. Houve muita surpresa no filme. Sua reação foi uma grande surpresa para mim
BBC Four: Por quê?
BL: Eu achava que ele pensasse que a arte relacional era algo bom, Rirkit Tiravanija era um de seus artistas e eu não poderia dizer se ele o achava bom ou não, ele parecia confuso, não parecia conhece-lo. De fato, ele parecia achar aquilo uma merda, mas não estava preparado para dizê-lo. Logicamente, ele dizia que ele não era muito significante. Mas eu não fiz o filme para argumentar se era ou não significante ou se era um ismo ou não. O ponto da série era olhar algo que parecia interessante e do qual eu poderia coletar várias opiniões.BBC Four: Uma das grandes coisas do filme é que você não chega na questão “A arte moderna vale alguma coisa?” É como se você fosse formando ligações entre diferentes artistas ao invés de entrar nesse debate batido.
BL: As pessoas que falam de arte e fazem programas de tv sobre arte e falam sobre arte são viciadas em suas próprias opiniões. Estão envolvidas nesse jogo horroroso no qual têm de competir para fazer as pessoas acharem que sua opinião é melhor do que a dos outros e eu apenas queria deixar isso de lado porque eu penso que isso apenas acaba com o prazer da arte e penso que a maneira como a maioria das pessoas aproveita a arte é mais flexível e divertida do que isso. Eu queria fazer isso como o ponto de partida do filme – as conversas divertidas que as pessoas têm em arte – “Será que ele é Fauvista ou Cubista”? Todos nós nos perguntamos, não?










